NÁCAR
NÁCAR é uma proposta performativa que reflete sobre esquecimento, ficção de memórias. É um poema subjectivo e autobiográfico que se incide num lugar de recolha e de fugas. Do árabe naqqára, «tambor», nácar é uma substância dura, irisada, rica em calcário, produzida por alguns moluscos, reveste o interior de diversas conchas e também é libertada como uma reação a um corpo estranho que tenha entrado na membrana epitelial. O corpo estranho causa irritação ao animal que passa a libertar essa secreção isolada para calcificação similar à parte interna da concha, formando uma pérola cujo tamanho varia de acordo com o tempo de resistência ao corpo estranho e das condições climáticas do meio ambiente. Nácar é também a substância que representa os trinta e um anos de um casamento. Desde já há algum tempo que tenho refletido sobre o facto de não ter praticamente nenhum arquivo (fotografias, vídeos, desenhos) sobre a minha infância. Para além dos materiais físicos, as partilhas que me foram transmitidas pelas pessoas próximas com quem cresci são raras e desconexas. Esta ausência de arquivo formou na minha memória um período distante, inventivo e carregado de suposições. A memória é um lugar de energia, armazenamento e evocação, muitas vezes indefinido e construído através da relação de imagens reais com desejos, conflitos e projeções. Este projeto nasce da necessidade de celebração de um espaço e do que este representa para festejar a ironia do que nos é vago e ainda assim tão certo e deslumbrante. Através da construção e desconstrução deste arquivo real e ficcional potencia-se o vigor dos lugares de fragilidade, numa viagem entre a clareza e o difuso, entre a tensão do querer saber e o deixar ir. O que foi, o que fica, o que lateja, o que vive, resiste, persiste.
Um projeto de Bruno Senune
Paisagem sonora Bruno Senune & Flávio Rodrigues
Vídeo Bruno Senune & Daniel Pinheiro
Poema Bruno Senune
Máscara Bruno Senune & Uri
Documentação & investigação Telma João Santos
Co-produção private collection - fffilm project (Balleteatro)
Obrigada a MIRA FORUM | Espaço Mira, Francisca Lopes, Régis Badel
© Vanessa Paraíba / FIDANC